No Brasil, think tanks de direita se aliam ao agronegócio em busca de um caminho de volta ao poder.

O retorno do presidente Lula ao cargo está aproximando seus oponentes.
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Camila Telles discursando no palco do Fórum da Liberdade de 2023 em Porto Alegre, Brasil.
A influenciadora do agronegócio Camila Telles foi uma das palestrantes do Liberty Forum, no Brasil, em abril. Crédito: Vini Dalla Rosa/IEE

“Eu até tirei minhas botas de trabalho e coloquei salto alto para vir aqui hoje”, disse Camila Telles à plateia de ativistas políticos, executivos e estudantes no Fórum da Liberdade de abril, um encontro conservador anual no Brasil patrocinado por a Rede Atlas.

Telles é uma influenciadora do agronegócio – entre seus clientes estão as grandes produtoras de carne brasileiras Seara e Friboi – com mais de 300,000 mil seguidores no Instagram e um talento especial para viralizar suas mensagens em defesa dos grandes produtores rurais. Do palco pouco iluminado, ela abriu o primeiro painel sobre agronegócio do evento com argumentos já conhecidos, zombando dos esquerdistas por culparem as vacas pelas mudanças climáticas. 

Em seguida, Telles abordou o fantasma que assombra o setor do agronegócio brasileiro: a “invasão de terras”, ou o temor de que o governo de esquerda de Lula possa de fato cumprir suas promessas de campanha de transferir terras agrícolas do setor privado para a propriedade dos trabalhadores.

“Nós, produtores, convivemos com esse medo diariamente”, disse Telles. “Infelizmente, a falta de segurança piorou, o que nos deixa muito preocupados.” Seguindo o formato popularizado pelas palestras TED, Telles falou com uma intensidade lenta e constante, conquistando aplausos da plateia a cada frase de efeito e pausa dramática.

A apertada eleição presidencial brasileira de outubro passado dividiu a poderosa coalizão de direita do país. Alguns grupos apoiaram a reeleição do populista Jair Bolsonaro. Outros deixaram de lado suas prioridades políticas tradicionais para apoiar a campanha – bem-sucedida no fim das contas – do esquerdista Luiz Inácio Lula da Silva, que retornou à presidência, argumentando que o autoritarismo de Bolsonaro estava colocando a democracia brasileira em risco.

“Existe uma grande preocupação com a qualidade da democracia na América Latina” entre alguns conservadores, afirma Mano Ferreira, diretor da Livres, um think tank de livre mercado ligado à a Rede Atlas

Ao longo de seus 35 anos de história, o Liberty Forum se tornou um dos principais pontos de encontro do ano para think tanks e políticos de direita de toda a América Latina. Este ano, o fórum serviu como uma etapa no caminho para a reconstrução da aliança política conservadora do Brasil. O painel, que contou com a participação de proeminentes defensores do agronegócio, sugeriu que os grandes agricultores brasileiros também estão buscando aliados para bloquear o governo Lula e recuperar a influência que desfrutavam sob Bolsonaro, cujas medidas para abrir a Amazônia levaram a um aumento do desmatamento impulsionado pela pecuária e pela mineração.

Telles foi acompanhado no palco por Joaquim Álvaro Pereira Leite, que foi ministro do Meio Ambiente durante o governo Bolsonaro, e Antônio Cabrera, ex-ministro da Agricultura, conhecido por criticar as leis que protegem territórios indígenas da conversão em pastagens. Cabrera está entre os membros brasileiros de destaque do Sociedade Mont Pelerin , uma rede de neoliberais afiliados a mais de 100 organizações conservadoras – muitas das quais fazem parte da Rede Atlas.

Embora a palestra no Liberty Forum tenha se concentrado nas questões que preocupam os conservadores brasileiros, a conferência é apenas um nó em uma grande rede descentralizada, cujos membros desempenham um papel fundamental na propagação da negação da ciência climática e na oposição à regulamentação ambiental em todo o mundo.

O Liberty Forum é organizado pelo Institute of Business Studies, um think tank libertário conhecido pela sigla IEE (Instituto de Estudos Empresariais). O grupo, por sua vez, conta com o apoio da Atlas Network, um influente think tank sediado em Washington, D.C., que há décadas apoia e financia think tanks conservadores em todo o mundo, e que esteve entre os patrocinadores do Liberty Forum.

O Fórum da Liberdade anual do IEE é um importante ponto de encontro para networking no circuito político conservador do Brasil. Crédito: Vini Dalla Rosa/IEE

Com a missão de "inundar o mundo com grupos de reflexão pró-mercado livre", nas palavras do ex-presidente da Atlas Network. John Blundell – também ex-presidente da Fundação Charles G. Koch – A Atlas afirma agora ter mais de 500 parceiros em quase 100 países. No Brasil, os grupos membros da Rede Atlas desempenharam um papel fundamental na defesa – e, por vezes, na implementação – de medidas de flexibilização das regulamentações ambientais que contribuíram para levar a Amazônia à beira do colapso. 

Rede de influência

Sediado em Porto Alegre, cidade do sudeste do país onde ocorreu o Fórum da Liberdade, o IEE descreve sua missão como a de fornecer treinamento de liderança para outros conservadores. 

Na prática, a organização funciona como um clube de pessoas muito ricas com grande influência econômica e política. Segundo o próprio IEE, seus membros e investidores representam cerca de cinco por cento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, que foi de US$ 1.92 trilhão em 2022. 

Segundo Luan Brun, doutorando em ciência política pela Universidade Federal de Santa Catarina, que estuda o IEE e a Rede Atlas no Brasil, o Fórum Liberdade é uma das principais plataformas do IEE para impulsionar candidatos políticos de direita. 

“Para um fórum que se diz pluralista, na prática não o é, já que quase não há políticos progressistas participando”, afirma Brun.

Brun afirma que o IEE também participa diretamente da política brasileira. O fundador do IEE, Winston Ling, apresentou Jair Bolsonaro a Paulo Guedes, que posteriormente chefiou o Ministério da Economia de Bolsonaro. Outros membros do IEE, Paulo Uebel e Wagner Lenhart, também fizeram parte da equipe econômica do governo Bolsonaro.

O IEE mantém laços de longa data com a Rede Atlas, que é financiado em grande parte por a indústria petrolífera e as organizações filantrópicas conservadoras dos Estados Unidos, de acordo com investigações anteriores do DeSmog

Ricardo Gomes, ex-presidente do IEE e eleito vice-prefeito do Porto Alegre em 2020, é membro do Conselho Global de CEOs da Atlas Network.

Nos Estados Unidos, a Atlas, que passou de apoiadora inicial da indústria do tabaco a negacionista das mudanças climáticas, colabora com importantes think tanks conservadores, como o de Nova York. Instituto de Manhattan, Centro Nacional de Análise de Políticas no Texas, e o Instituto Acton no Michigan. 

A partir de 2021º de agosto, o O site Atlas listou 15 centros de estudos com sede no Brasil. que se concentram na academia, na política e em outros campos como parceiros. (A lista foi posteriormente removida do site.) Entre eles, destacam-se: o Instituto Millennium, que forneceu pessoal-chave para o governo Bolsonaro e ajudou sua administração a legitimar suas desastrosas políticas econômicas e ambientais; e o Estudantes pela Liberdade Brasil, que ajudou a mobilizar protestos que pediam o impeachment da ex-presidente de esquerda Dilma Rousseff em 2016.

Um projeto da Atlas Network chamado O Centro para a América Latina concentra-se sobre a observação e o fomento de iniciativas pró-mercado livre na região. Embora a Atlas Network não disponibilize dados financeiros por país, as declarações fiscais anuais dos EUA mostram que, entre 2010 e 2021, o grupo doou aproximadamente US$ 12 milhões a think tanks latino-americanos, relatados principalmente como financiamento para “educação econômica”. 

A Atlas Network é uma patrocinadora fiel do Liberty Forum. Executivos e coordenadores da Atlas têm participado frequentemente da conferência – em 2023, o CEO Brad Lips, a diretora associada Antonella Marty e o ex-presidente Alejandro Chafuen subiram ao palco. Lips e Chafuen também são membros da Sociedade Mont Pelerin.

O IEE foi finalista do "Prêmio Templeton de Liberdade" da Atlas Network diversas vezes, tendo vencido o prêmio em 2007. Em 2017, a Atlas concedeu ao IEE o "Prêmio Juan Carlos Cachanosky pela Disseminação dos Princípios da Sociedade Livre".

A Atlas Network não respondeu ao pedido de comentário da DeSmog.

Divisões na direita

Durante as eleições de 2022, alguns grupos conservadores e libertários apoiaram Bolsonaro, enquanto outros adotaram uma postura de cautela no primeiro turno e, posteriormente, apoiaram o Partido dos Trabalhadores de Lula no segundo turno. O Livres, que tentou manter uma distância segura de seus pares mais à direita durante as eleições, passou a se opor veementemente a Lula, que prometeu acabar com o desmatamento da Amazônia, intensificado durante o governo de seu antecessor, favorável ao agronegócio. O Livres, afiliado à Atlas Network, também foi finalista do O Prêmio Templeton de Liberdade em 2022.

“Há uma facção preocupada com os danos causados ​​pela cooperação com projetos populistas”, afirma Ferreira, diretor da Livres. 

Embora os remanescentes mais radicais da coalizão Bolsonaro vejam Lula como a maior ameaça à democracia brasileira, alguns observadores acreditam que eles se deslocaram para as franjas políticas. 

“Acho que essa facção está alheia às questões contemporâneas”, diz o diretor de um think tank conservador, que pediu para não ser identificado. 

No Fórum da Liberdade deste ano, este diretor observou que a grande maioria dos painéis abordou o que ele considerou temas marginais à atual luta política para manter a democracia no Brasil, como um painel sobre feminismo liberal liderado por Antonella Marty, do Atlas.

ORGANIZAÇÃOLOCALIZAÇÃO
Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (Centro Mackenzie para Economia Liberal)São Paulo
Instituto Atlantos (Instituto Atlantos)Porto Alegre
Instituto de Estudos Empresariais (Instituto de Estudos Empreendedores)Porto Alegre
Instituto de Formação de Líderes (Instituto de Formação em Liderança)Belo Horizonte
Instituto de Formação de Líderes de SP (Instituto de Treinamento de Liderança SP)São Paulo
Instituto de Formação de Líderes de SC (Instituto de Formação de Liderança SC)Santa Catarina
Instituto Liberal (Instituto Liberal)Rio de Janeiro
Instituto Liberal de São Paulo (Instituto Liberal de São Paulo)São Paulo
Instituto Liberdade (Instituto da Liberdade)Porto Alegre
Instituto Ludwig Von Mises Brasil (Instituto Ludwig Von Mises do Brasil)São Paulo
Instituto Líderes do Amanh (Instituto Líderes do Amanhã)Vitória
Instituto Millennium (Instituto do Milênio)Rio de Janeiro
Livros (Free)Rio de Janeiro
Estudantes pela Liberdade BrasilSão Paulo
Em agosto de 2021, a Atlas Network identificou esses 14 think tanks brasileiros como afiliados.

Essas divisões dentro da direita não impediram a formação de uma frente anti-Lula, pois seus membros ainda estão unidos por sua agenda neoliberal comum de governo menor e orçamentos drasticamente reduzidos, de acordo com analistas.

“No governo Lula, temos um Estado maior e uma permissão para que o Estado gaste mais dinheiro de forma descontrolada”, afirma Vladimir Maciel, diretor acadêmico do Mackenzie Center for Economic Freedom, um think tank que se concentra na produção de estudos de defesa de políticas de livre mercado. 

Rodrigo Saraiva Marinho, figura influente da direita e atual presidente do Instituto do Livre Mercado, corroborou essa análise: “Queremos impedir o crescimento do Estado. Portanto, nossa posição é trabalhar contra as políticas do Partido dos Trabalhadores”.

Os think tanks conservadores, incluindo os afiliados à Atlas Network, estão abordando a era pós-Bolsonaro de maneiras diferentes – desde a oposição vocal a Lula até uma estratégia de longo prazo para defender os ideais da direita. “Há aqueles que vão estar na política e aqueles que vão ficar de fora, porque essa não é a missão deles”, argumenta Marinho, que vê o trabalho do seu Instituto de Livre Mercado como uma batalha constante para manter a legitimidade da direita nos debates políticos nacionais, apesar do retorno da esquerda ao poder. “[Estamos] definindo o tom das ideias, e não discutindo o governo Lula”, afirma. 

Uma Aliança Antiga Totalmente Nova

Embora o setor do agronegócio tenha seus próprios institutos e redes políticas, a eleição de Lula ressaltou a importância de construir pontes com a direita – cuja oposição de longa data aos subsídios governamentais pode gerar atritos com os grandes agricultores. 

Telles, a influenciadora, é ela própria um produto do poder e da influência exercidos pelo agronegócio brasileiro, que apoiou sua ascensão à proeminência em consonância com seus métodos mais tradicionais de exercício de poder, por meio de apoiadores no Congresso Nacional e em todo o "interior do Brasil", através de prefeitos, governadores, deputados e fazendeiros aliados. 

 Na opinião de Marinho, a presença do agronegócio no Fórum da Liberdade foi um sinal claro de que o setor está preocupado com a agenda de Lula. 

“O fato de o painel sobre agronegócio estar sendo realizado no Liberty Forum demonstra que o setor não dialoga com o governo de Lula”, afirma Vladimir Maciel, diretor acadêmico do Mackenzie Center for Economic Freedom.

Maciel observou que o atual Ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, não compareceu à Agrishow de abril, a principal feira de agronegócio da América Latina. 

Em comparação, Bolsonaro não apenas participou do evento anual enquanto presidente, diz Maciel, mas voltou este ano – sob aplausos – apesar de estar fora do cargo.

Sob o governo Lula, “há um alinhamento” de interesses entre o agronegócio e os think tanks de direita, diz Maciel, embora até o momento “não se encontre nenhum think tank produzindo conteúdo específico sobre agronegócio”. A ligação não chega a ser uma colaboração explícita, afirma ele.

Muitos membros do IEE têm vínculos pré-existentes com o agronegócio. Embora Telles se apresentasse como uma pessoa de fora no Liberty Forum, ela foi descrita como uma "frequentadora assídua do Fórum". O ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, também tem participado repetidamente de painéis e conferências do IEE. Salles ganhou notoriedade por querer "conduzir o gado" pela Amazônia e tem trabalhado com o Instituto Millennium por meio de seu movimento de direita, o Movimento En Planence Brasil.   

O setor do agronegócio sempre trabalhou em estreita colaboração com grupos de reflexão de direita, afirma Camila Feix Vidal, professora de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina.

Ela salientou que ambos defendem um modelo de livre mercado para a exportação de produtos primários e rejeitam o poder do Estado de regular os impactos ambientais da indústria. "Não é por acaso que as instituições [neo]liberais tendem a questionar ou deslegitimar o conceito de aquecimento global", observou.  

Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), afirma que a aliança entre think tanks de direita e o agronegócio “se intensificou” durante o primeiro mandato de Lula, graças a crenças libertárias compartilhadas, incluindo a criminalização da reforma agrária.

Matheus Almeida, membro do IEE e diretor do Fórum da Liberdade de 2023, afirma que a ideia de realizar um painel sobre agronegócio não estava diretamente relacionada à eleição de Lula. No entanto, em sua opinião, o IEE e os agricultores compartilham os mesmos valores, mesmo que os agricultores nem sempre se deem conta disso.

Almeida vê a necessidade de unir as áreas rurais e urbanas em um “público do agronegócio” e dissipar supostos mitos sobre o setor. “Todos os palestrantes do painel sobre agronegócio falaram sobre isso. Um estereótipo do homem rural está sendo gradualmente criado, o que não corresponde à realidade”, afirma.

Apesar de algumas diferenças e divisões internas, uma crescente convergência de interesses comuns entre o agronegócio e os think tanks de direita, desde a vitória eleitoral de Lula, formou uma nova e poderosa corrente política para se opor à sua agenda e a qualquer tentativa de reeleição. No fim das contas, Telles usa salto alto com mais frequência do que gostaria de admitir.  

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Lucas Araldi é um jornalista brasileiro e doutorando em Ciência Política pela Universidade de Kassel, na Alemanha. Ele estuda as disputas entre redes intelectuais de direita e progressistas sobre políticas ambientais e trabalhistas na América Latina.

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