A JBS, maior empresa de processamento de carne do mundo, quer dinheiro público para combater as mudanças climáticas.

Grande poluidor brasileiro defende o agronegócio como solução para a fome no G20.
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Uma manada de gado sendo conduzida por fazendeiros a cavalo em uma fazenda no estado do Pará, Amazônia, Brasil. Crédito: Brarymi / Alamy Stock Photo

JBS – a maior empresa de carne do mundo, com uma receita líquida de 3.1 bilhões de dólares Somente no segundo trimestre de 2024, o governo está buscando mais financiamento para combater as mudanças climáticas. 

O CEO global da empresa Gilberto Tomazoni Em setembro, reclamou-se que “atualmente, apenas quatro por cento do investimento em mudanças climáticas é direcionado para a agricultura e os sistemas alimentares”, prosseguindo com elogios ao “tremendo potencial da agricultura para capturar carbono” e estimando o custo da transformação entre 300 e 350 bilhões de dólares.

A iniciativa de Tomazoni de apresentar o setor de carnes como um potencial protagonista negligenciado na luta contra as mudanças climáticas se destaca no Brasil, onde o setor é responsável por grande parte das emissões de gases de efeito estufa do país.

Cientistas afirmam que a pecuária contribui com 28% do total do Brasil, já que os rebanhos bovinos emitem metano, um potente gás de efeito estufa, e as florestas são desmatadas para a criação de gado. 

O apelo de Tomazoni por maiores investimentos no agronegócio faz parte de uma estratégia mais ampla dos gigantes agrícolas para apresentar-se como parte da solução para o aquecimento global em fóruns multilaterais, como o G20, onde líderes mundiais se reúnem esta semana, nos dias 18 e 19 de novembro, no Rio de Janeiro.

As empresas esperam se beneficiar do compromisso do FMI e do Banco Mundial. feita Em outubro, foi anunciado que o financiamento para a agricultura "climaticamente inteligente" será duplicado para US$ 9 bilhões por ano até 2030.

Nesses fóruns, pode-se contar com o agronegócio para reforçar argumentos bem ensaiados e enganosos, que sempre buscam aumentar a produção – e evitam cuidadosamente qualquer referência à redução do consumo de carne.  

Em vez disso, as empresas alegam que os produtores de carne podem play um “papel decisivo em sistemas alimentares sustentáveis”, com argumentos como o de que a pecuária pode promover solos saudáveis ​​e, assim, auxiliar no armazenamento de carbono – uma prática frequentemente... cunhado como agricultura regenerativa. No entanto, cientistas apontam que o solo não é um método confiável de longo prazo para sequestro de carbono. 

Outro ponto de discussão da indústria alimentícia é que ela pode play um papel crucial no “combate à fome”, na redução da insegurança alimentar e da desnutrição no Sul Global. No entanto, o Comitê das Nações Unidas sobre Segurança Alimentar Mundial afirmou que a fome e a desnutrição são não causado pela escassez de alimentos, mas principalmente por problemas relacionados à energia, ao acesso e à distribuição.

O CEO da JBS liderou a Força-Tarefa de Sistemas Alimentares e Agricultura Sustentável do B20, um fórum empresarial global que visa influenciar as decisões do G20. A força-tarefa também incluiu executivos de outros gigantes do agronegócio, como a Bunge, comercializadora de soja dos EUA, a Cofco, maior comercializadora de commodities da China, e empresas do setor de pesticidas. Bavierae gigantes do setor alimentício como a PepsiCo e a brasileira BRF.

O B20 encontrou receptividade no Grupo de Trabalho de Agricultura do G20 – que reúne ministros da agricultura dos países participantes – ao apresentar um conjunto de recomendações em 9 de setembro ao presidente do grupo, Carlos Fávaro. O Ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil, Fávaro, acompanha de perto a questão. alinhado com interesses no agronegócio e pecuarista. 

A JBS e seus aliados do agronegócio tiveram sucesso em moldar as discussões globais sobre agricultura e segurança alimentar, como demonstram muitas das recomendações do B20. Fizeram seu caminho em uma declaração conjunta dos ministros do Grupo de Trabalho de Agricultura do G20. Segundo Tomazoni, “75%” das recomendações da força-tarefa do B20 foram aceitas e incluídas na declaração.

Sua alegação é corroborada pelo documento do Grupo de Trabalho de Agricultura do G20. lançado em 13 de setembro, que faz referência explícita à força-tarefa do agronegócio, afirmando: “Tomamos nota, conforme apropriado, das recomendações dos grupos de engajamento do B20 (...) para garantir uma transformação inclusiva do sistema alimentar global, promovendo o crescimento da produtividade e modelos de financiamento para apoiar a transição dos agricultores”. 

Outro elemento do documento da força-tarefa do B20, reproduzido quase que literalmente na declaração do Grupo de Trabalho sobre Agricultura do G20, é o apelo por um “sistema multilateral de comércio transparente, justo, previsível, aberto, não discriminatório, inclusivo, sustentável, equitativo e baseado em regras, com a OMC no seu núcleo, essencial para promover mercados globais justos, especialmente em tempos de incerteza e crises globais de segurança alimentar”.

Este ponto pode ser visto como uma posição contra potenciais medidas protecionistas e restrições aos produtos brasileiros nos mercados globais, particularmente à luz do novo Regulamento de Produtos Livres de Desmatamento da União Europeia, que entrará em vigor em janeiro de 2025. Este regulamento proíbe a importação de produtos agrícolas originários de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. atraiu críticas do ministro Fávaro e representantes do agronegócio, que argumentam que se trata de protecionismo disfarçado de ambientalismo.

Especialistas classificaram o pedido de investimento do setor como “absurdo”. “O setor pecuário, que cresceu 29% no ano passado, deveria ser o que mais investe na mitigação de seu impacto, visto que é altamente prejudicial e carece até mesmo de esforços mínimos de mitigação”, afirmou Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (PROAM).

Segundo Bocuhy, qualquer investimento destinado ao setor alimentar deve priorizar a agroecologia e a agricultura familiar em pequena escala. “É absolutamente benéfico para o meio ambiente e livre de pesticidas. É semelhante a escolher entre investir em energia limpa ou combustíveis fósseis. Os recursos devem ser direcionados para setores que representem a sustentabilidade”, afirmou.

A JBS foi contatada para comentar o assunto.

Aumento das emissões de gases de efeito estufa no Brasil

Um estudo lançado em 7 de novembro Um levantamento do Observatório do Clima e do Imaflora indicou que, pelo quarto ano consecutivo, a agricultura brasileira bateu recorde de emissões de gases de efeito estufa, segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

Segundo o relatório, as emissões aumentaram 2.2% em comparação com 2022, principalmente devido ao crescimento do rebanho bovino. O metano proveniente dos arrotos do gado, por si só, representou cerca de 355 milhões de toneladas. “Hoje, a pecuária responde por 64% das emissões do setor agropecuário, e a agricultura como um todo representa 28% das emissões totais do Brasil”, afirmou David Tsai, coordenador do SEEG no Observatório do Clima.

Nesse contexto, “a ideia de reduzir o tamanho dos rebanhos é cada vez mais discutida por cientistas e ambientalistas”, observou Gabriel Quintana, analista da Imaflora. “Ao limitar o tamanho dos rebanhos, poderíamos estabelecer um teto para as emissões. Isso faria sentido do ponto de vista das emissões, mas tal medida entra em conflito com os interesses do agronegócio, o que a torna improvável, dado o impacto direto nas exportações.” Uma solução mais viável, sugeriu ele, poderia ser o “abate precoce do gado”, já que reduzir a expectativa de vida de um animal poderia diminuir suas emissões.

As emissões da pecuária não são a única forma pela qual o agronegócio contribui para a crise climática. Além de ser a maior fonte de emissões, a produção pecuária foi responsável por 77% do desmatamento na Amazônia entre 1985 e 2022 no Brasil e em países vizinhos. De acordo com um relatório da MapBiomas publicado em dezembro de 2023.

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Gil Alessi é um jornalista freelancer que reside no Brasil.

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