No Brasil, gigantes do agronegócio contratam influenciadores digitais para conquistar corações e mentes.

Médicos e modelos exaltam as virtudes da carne enquanto os impactos climáticos da agricultura industrial são analisados ​​na COP30 — a cúpula global do clima.
(Crédito: Sabrina Bedford)

Empresas do agronegócio mobilizaram um exército de influenciadores brasileiros nas redes sociais antes da cúpula climática das Nações Unidas, que está sendo realizada na cidade amazônica de Belém, onde o aumento das emissões de gases de efeito estufa da indústria da carne e seu papel no desmatamento estão entre os principais temas da agenda.

Pelo menos 195 influenciadores — de modelos e apresentadores de notícias a médicos e ativistas de direita — publicaram conteúdo no Instagram patrocinado por 10 das maiores empresas mundiais de pecuária, fertilizantes e alimentos nos 12 meses que antecederam as negociações. conhecido como COP30.

Esse número representa mais que o dobro dos 80 influenciadores pagos para produzir conteúdo patrocinado no mesmo período do ano anterior, de acordo com uma análise da DeSmog, publicada em parceria com a [nome da empresa/organização]. Agência Pública

Uma versão deste artigo foi publicado Por Agência Pública.

Em conjunto, esses influenciadores têm centenas de milhões de seguidores no Instagram. O conteúdo incluía afirmações sobre os benefícios da carne para a saúde, esquetes de comédia sobre agricultura e promoções de nuggets de frango e hambúrgueres no estilo de videoclipes. 

O astro pop João Gomes publicou um vídeo cantando e dançando ao lado de saxofonistas após comer um hambúrguer da Maturatta, marca subsidiária da gigante brasileira de carnes. JBS, para seus 16.6 milhões de seguidores no Instagram em março.

A médica e atleta amadora brasileira Dra. Luciana Haddad também exaltou as virtudes da carne bovina, dizendo a seus 125,000 mil seguidores no Instagram, em outubro, que estava produzindo “conteúdo baseado em ciência” para a empresa brasileira de carnes Minerva, acrescentando: “No meu caso, a carne sempre foi essencial para a recuperação e o desempenho!”.

Em outubro, a Dra. Luciana Haddad publicou um vídeo para a empresa brasileira de processamento de carne Minerva, no qual afirmou que a carne era "essencial" para uma boa saúde.

Durante o festival de música “The Town”, em São Paulo, em setembro, a influenciadora de moda Bruna Biancardi postou um vídeo abrindo sua bolsa de grife para revelar produtos de frango frito da Seara, marca da JBS, com a legenda: “@searabrasil me convidou para mostrar o que levo na minha bolsa nos dias de festival”. Biancardi tem 14.5 milhões de seguidores.

Fátima Bernardes, uma das apresentadoras de telejornal mais famosas do Brasil, também publicou conteúdo patrocinado do festival, recebendo mais de 100,000 mil curtidas em um vídeo que postou para seus 13 milhões de seguidores no Instagram, mostrando-se usando uma fritadeira elétrica sem óleo para preparar nuggets de frango da Seara.

Muitas vezes, os influenciadores usavam sua reputação ou conhecimento especializado para associar os produtos das empresas à cultura pop ou promover seus supostos benefícios para a saúde e o bem-estar, em vez de abordar diretamente as preocupações climáticas ou ambientais.

Questionado sobre o assunto, Haddad respondeu por e-mail que “toda parceria que estabeleço com empresas tem o mesmo objetivo: ampliar o diálogo e levar informações de qualidade sobre o que realmente importa para o bem-estar… com a Minerva, meu conteúdo se concentra exclusivamente na minha área de especialização, ou seja, saúde”.

Biancardi e Bernardes não responderam aos pedidos de comentários.

A modelo Bruna Biancardi criou conteúdo para a marca de frango Seara, da JBS, no festival de música “The Town”, em setembro.

O aumento dos patrocínios de influenciadores antes da COP30 não surpreendeu Eva Morel, secretária-geral do think tank de mídia QuotaClimat, com sede em Paris, que publicou um relatório no mês passado. sobre desinformação climática nos principais meios de comunicação franceses e brasileiros.

“Isso reflete a nova estratégia das grandes corporações para legitimar suas ações e melhorar sua reputação — apostando em uma forma de comunicação mais humana e acessível, que se conecta com o público e influencia diretamente os estilos de vida”, disse Morel. “O volume, no entanto, é preocupante e exige maior vigilância por parte dos legisladores.”

A estatal petrolífera brasileira também recorreu às redes sociais para promover mensagens enganosas na preparação para a COP30. Um estudo recente Agência Pública investigação (co-publicado (DeSmog) revelou que a Petrobras contratou uma equipe de sete influenciadores da Geração Z nas áreas de ciência, clima e cultura para produzir conteúdo que retratasse a gigante dos combustíveis fósseis como uma defensora da energia limpa.

Para analisar o conteúdo de influenciadores patrocinado pelo agronegócio no Instagram, a DeSmog utilizou dados coletados da biblioteca de anúncios da Meta, empresa controladora do Instagram, além de buscar manualmente por conteúdo patrocinado que não havia sido identificado pela biblioteca. As 10 empresas incluídas na análise representam toda a extensão da cadeia de suprimentos alimentares global e estão no centro do modelo industrial da agricultura: a multinacional brasileira JBS, maior produtora de carne do mundo, e as também brasileiras MBRF e Minerva Foods; gigantes globais de sementes comerciais e pesticidas. Baviera, Corteva e Syngenta; Multinacional europeia de fertilizantes Yara; e as empresas de commodities agrícolas sediadas nos EUA ADM, Bunge e Cargill.

A JBS, a MBRF e a Minerva geraram o maior volume de conteúdo com influenciadores, representando três quartos das aproximadamente 200 parcerias. No entanto, o maior aumento no uso de influenciadores foi observado em quatro empresas: Bayer, Syngenta, Cargill e Bunge, que passaram de praticamente nenhum conteúdo com influenciadores no Brasil para um total combinado de 32 parcerias nos últimos 12 meses. 

Sete das dez empresas aumentaram o uso de influenciadores nos últimos 12 meses. Yara, Corteva e ADM diminuíram ligeiramente o uso ou não utilizaram influenciadores nos últimos dois anos.

Em resposta a um pedido de comentário, a Syngenta afirmou que trabalha com influenciadores para "manter-se relevante junto aos nossos stakeholders" e que "investir na produção de informações de qualidade contribui para o fortalecimento da ciência e da inovação em todas as áreas, especialmente na agricultura".

Yara recusou-se a comentar para esta reportagem.

A JBS solicitou mais informações sobre o conteúdo do influenciador mencionado, mas não se pronunciou. MBRF, Minerva Foods, Bayer, Corteva, ADM, Bunge e Cargill não responderam aos pedidos de comentários.

Defensores do clima afirmam que, ao se associarem a celebridades brasileiras, os gigantes do agronegócio buscam distrair o público de suas emissões crescentes e afastar os apelos para reduzir o consumo de carne em favor de dietas à base de vegetais, que têm um impacto muito menor na saúde humana, no clima e no meio ambiente.  

Um estudo de 2024 realizado por pesquisadores de saúde pública da Universidade de São Paulo descobriu que O consumo excessivo de carne vermelha diário pelo brasileiro médio aumenta o risco de doenças como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares. Além disso, ultrapassa em muito a “dieta da saúde planetária” recomendada por [nome da organização/instituição]. a Comissão EAT-Lancet em sistemas alimentares saudáveis, sustentáveis ​​e justos, que aumentam as proteínas de origem vegetal e diminuem as de origem animal.

De acordo com a revisão por pares da EAT-Lancet Atualização de outubro de 2025As emissões de gases de efeito estufa provenientes da agricultura diminuiriam cerca de 15% se o consumo de carne, gorduras saturadas, açúcar e sal em países ricos fosse reduzido, enquanto as mortes relacionadas à nutrição diminuiriam em cerca de 15 milhões por ano em todo o mundo — o equivalente a salvar mais de 41,000 vidas por dia. Esses impactos serão ainda maiores se as mudanças relacionadas à alimentação forem além das dietas, observou a EAT-Lancet: “Uma transformação dos sistemas alimentares é fundamental para solucionar as crises relacionadas ao clima, à biodiversidade, à saúde e à justiça”.

Estratégia digital reforça a imagem do agronegócio

A presidência brasileira, anfitriã da rodada deste ano de negociações climáticas, elegeu a “transformação dos sistemas agroalimentares” como o terceiro objetivo da conferência climática. É provável que o agronegócio esteja implementando... centenas de lobistas, bem como patrocinando semelhantes argumentar que a indústria pode enfrentar a crise climática por meio de tweaking continuar com as coisas como sempre — em vez de fazer as mudanças estruturais fundamentais que os cientistas climáticos dizem ser necessárias para reduzir drasticamente as emissões. 

As táticas das grandes empresas de carne e agroquímicos incluem minimizar os impactos climáticos do setor, defender soluções tecnológicas pouco confiáveis ​​e argumentar que a regulamentação obrigatória da poluição por carbono representa uma ameaça à saúde e à prosperidade humanas.Para um guia sobre as narrativas do agronegócio nas palestras, clique aqui. aqui. —Eds.]

Visões alternativas são oferecidas fora do local da conferência, em um Cúpula do Povo, onde milhares de ativistas, pequenos agricultores e ativistas indígenas estão pedindo uma mudança para métodos agrícolas de menor impacto e mais sustentáveis. resiliente aos choques climáticos.

Especialistas temem que a proliferação de conteúdo de influenciadores possa fortalecer o domínio das empresas agroalimentares sobre a opinião pública, dificultando a atuação de políticos e da sociedade civil em defesa de reformas. Sete em cada dez brasileiros têm uma visão positiva do agronegócio, segundo pesquisa publicada em julho de 2024 pela Universidade Federal do Pará.

“Regular a influência online tornou-se uma questão fundamental para garantir a aceitabilidade social da transição [para uma economia de baixo carbono]”, disse Morel. “Negligenciar essa questão pode comprometer a credibilidade de instrumentos públicos eficazes — a começar pelos compromissos assumidos na COP.”

Muitos dos influenciadores contratados pelas empresas analisadas pela DeSmog, que estão entre as figuras mais populares da cultura pop brasileira, foram pagos para promover produtos específicos, como hambúrgueres de carne e nuggets de frango, ou para interagir com comunidades online específicas.

O especialista em fitness e personalidade da televisão Marcio Atalla participou de um vídeo da Minerva em fevereiro, no qual afirmou a seus 1.1 milhão de seguidores que a carne “é uma excelente fonte de proteína, vitaminas e minerais, essenciais para a saúde, ganho de massa muscular magra e até mesmo para o coração!”. Atalla também disse: “Confio na Minerva Foods, que garante qualidade e está comprometida com a sustentabilidade”.

Atalla não respondeu ao pedido de comentário.

Empresas agroquímicas como a Syngenta, por sua vez, escolheram criadores de conteúdo populares especificamente na comunidade agrícola.

O canal Primos Agro, administrado por dois primos que fazem vídeos satíricos sobre suas vidas como agricultores, publicou dois vídeos para seus 2.1 milhões de seguidores em setembro e outubro, promovendo os fertilizantes da Syngenta. Os vídeos receberam um total de 280,000 mil curtidas.

Embora mais raro, alguns influenciadores falaram diretamente sobre questões climáticas e ambientais.

A influenciadora do agronegócio Camila Telles, que regularmente fala em eventos de direita e tem ligações com o Rede Atlas de grupos de reflexão conservadores defensores do livre mercado, publicado Em junho, Minerva publicou um vídeo perguntando aos seus 455,000 mil seguidores: "Vocês sabiam que a carne no prato de vocês pode ajudar o meio ambiente?".

Alguns influenciadores publicaram em nome de empresas do agronegócio e de organizações ambientais. O influenciador de humor Fabio Cruz, que publicou para a marca de carnes Seara durante o festival de música The Town em setembro, publicou para o Greenpeace Brasil no mês passado vestindo uma camiseta que dizia “Respeitem a Amazônia”.

Os dois influenciadores agrícolas por trás da conta Primos Agro criaram vários esquetes de comédia para a empresa de pesticidas Syngenta este ano.

Em resposta a um pedido de comentário, Telles afirmou por e-mail que “as parcerias que estabeleço existem justamente porque meu trabalho já é reconhecido por sua abordagem séria, coerente e baseada em fatos sobre o agronegócio brasileiro. ELAS NÃO DEFINEM MEU CONTEÚDO — apenas ampliam o alcance de temas que venho defendendo há anos, com ou sem patrocínio.”

Primos Agro e Cruz não responderam aos pedidos de comentários.

Marcas intensificam publicidade à medida que a COP30 se aproxima.

O conteúdo gerado por influenciadores foi apenas uma das armas no arsenal publicitário utilizado pelas 10 empresas antes da COP30.

Nos 12 meses que antecederam a cúpula do clima, eles também veicularam mais de 6,000 anúncios direcionados ao público brasileiro no Google, incluindo cerca de 350 anúncios em vídeo, sendo que quase metade entrou no ar nos 30 dias que antecederam o encontro.

No final de outubro, as empresas também tinham um total de 929 anúncios ativos no Facebook e no Instagram no Brasil. Como a legislação brasileira não exige que a Meta — empresa controladora do Facebook e do Instagram — mantenha anúncios inativos em sua biblioteca de anúncios, não foi possível determinar se as empresas aumentaram o número de anúncios nessas plataformas.

No entanto, a análise sugere que as empresas tinham um foco particular no Brasil. Em 31 de outubro, empresas de agrotóxicos como Bayer, Corteva e Syngenta tinham mais anúncios ativos no Facebook e Instagram no Brasil do que nessas plataformas em qualquer outro país.

O brasil é o terceiro maior usuário de pesticidas no mundo, depois da China e dos Estados Unidos.

Assim como o conteúdo dos influenciadores, os anúncios geralmente evitavam abordar as mudanças climáticas de forma direta, mas serviam para justificar os modelos de negócios existentes das empresas, concentrando-se nos benefícios de seus produtos e serviços.

Um anúncio da Bayer declarava: "Continuamos com a mesma missão: saúde para todos, fome para ninguém", referindo-se tanto ao seu negócio farmacêutico quanto ao seu negócio de agroquímicos.

Um anúncio da JBS promovia oportunidades de emprego, convidando jovens recém-formados a se juntarem à empresa e "alimentarem o mundo". 

Nos Estados Unidos, a subsidiária americana da JBS neste mês estabelecido Uma ação judicial por propaganda enganosa movida pelo estado de Nova York. A procuradora-geral Letitia James processou a empresa por violar as leis estaduais de proteção ao consumidor ao anunciar falsamente que zeraria suas emissões de gases de efeito estufa até 2040, após a investigação de seu gabinete constatar que a JBS ainda não havia calculado suas emissões totais e não tinha um plano concreto para cumprir a promessa.

Nos anúncios, a JBS USA "usou greenwashing e declarações enganosas" para atrair o desejo dos consumidores por produtos ecologicamente corretos, afirmou o gabinete do Procurador-Geral em um comunicado. comunicados à CMVMPor exemplo: “A agricultura pode fazer parte da solução climática. Bacon, asas de frango e bife com emissões líquidas zero. É possível.”

A JBS concordou em pagar ao estado US$ 1.1 milhão para apoiar programas de agricultura resiliente às mudanças climáticas em Nova York, mas afirmou em um comunicado que sua decisão de chegar a um acordo "não reflete uma admissão de culpa".

Reportagem adicional de Ellen Ormesher, Maria Martha, Maria Clara Parente e Emily J Gertz

CORREÇÃO (11/17/25): Este artigo foi corrigido para refletir que a recente reportagem sobre sete influenciadores da Geração Z contratados pela Petrobras foi baseada em uma investigação da Agência Pública.

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TJ é um repórter investigativo especializado em greenwashing e comunicação climática. Ele se juntou à DeSmog no verão de 2023, após cinco anos trabalhando com campanhas criativas e relações públicas.
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Rachel é uma pesquisadora investigativa e repórter baseada em Bruxelas. Seu trabalho já foi divulgado por veículos como The Guardian, Vice News, Financial Times e The Hill.
Foto recortada de Clare Carlile
Clare é pesquisadora na DeSmog, com foco no setor do agronegócio. Antes de ingressar na organização em julho de 2022, foi coeditora e pesquisadora da revista Ethical Consumer, onde se especializou em direitos dos trabalhadores migrantes na indústria alimentícia. Seus trabalhos foram publicados no The Guardian e no New Internationalist.

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