Publicado originalmente no Climate Liability News.
Processos judiciais relacionados às mudanças climáticas, antes restritos principalmente aos EUA, agora são apresentados em quase 30 países, visando governos e empresas poluidoras, de acordo com a análise mais recente dessa tendência.
Um novo relatório foi publicado este mês pelo Instituto de Pesquisa Grantham sobre Mudanças Climáticas e Meio Ambiente da London School of Economics. Ele acompanha o progresso dos processos judiciais — movidos desde 1990 — à medida que se expandiram para além dos EUA, e prevê que a tendência continuará.
“ Responsabilizar governos e empresas por não combaterem as mudanças climáticas tornou-se um fenômeno global”, disse Joana Setzer, pesquisadora do Grantham Research Institute e coautora do relatório. “Pessoas e grupos ambientalistas estão levando governos e empresas aos tribunais por não agirem em relação às mudanças climáticas, e não apenas nos Estados Unidos.”
Ações judiciais relacionadas ao clima foram movidas em pelo menos 28 países. A maioria dos casos — 1,023 identificados até maio de 2019 — vem dos EUA, mas os processos climáticos também têm se espalhado pela Europa e pela região da Ásia/Pacífico. Ações judiciais também surgiram no Canadá, na Índia e em países da África e da América do Sul. De acordo com o relatório, o litígio climático em países de baixa e média renda tem crescido. Esses casos apresentaram alguns desenvolvimentos positivos iniciais, incluindo um caso no Paquistão que reconheceu os direitos humanos como uma base legítima para responsabilizar os governos pelas mudanças climáticas; um caso liderado por jovens na Colômbia que representou uma vitória para o movimento pelos direitos da natureza, reconhecendo os direitos do Rio Amazonas; e um caso na África do Sul que reconheceu as mudanças climáticas como uma consideração relevante no planejamento ambiental.
Embora essas e a maioria das outras ações judiciais climáticas busquem responsabilizar os governos, os litígios climáticos estão cada vez mais direcionando seus esforços para entidades corporativas, como as produtoras de combustíveis fósseis. O relatório observa que uma “nova onda” de ações de responsabilidade climática contra essas empresas se beneficia de pesquisas que demonstraram que as chamadas “ Grandes Emissoras de Carbono”, um grupo de 90 empresas, foram responsáveis por quase dois terços da poluição de carbono desde a Revolução Industrial. Os casos também se baseiam no crescimento da ciência da atribuição, que relaciona eventos climáticos extremos às mudanças climáticas.
“ Em casos que buscam estabelecer a responsabilidade dos emissores de gases de efeito estufa por danos, a ciência climática pode ser crucial para determinar se os litigantes têm legitimidade para processar. A ciência é uma parte essencial de novos processos judiciais, comprovando que as ações dos réus causaram danos aos demandantes”, diz o relatório.
Os processos contra as produtoras de combustíveis fósseis também buscam comprovar que as empresas tinham conhecimento das consequências da queima de combustíveis fósseis décadas atrás, mas trabalharam deliberadamente para negar ou ocultar esse risco do público, financiando grupos de fachada para minar a ciência climática e bloquear políticas climáticas. Os autores dessas ações, que buscam indenização por custos relacionados ao clima, incluem governos municipais, o estado de Rhode Island e uma associação de pesca comercial. A ExxonMobil também enfrenta diversos processos de investidores e uma ação movida pelo procurador-geral de Nova York, que alega que a gigante do petróleo deturpou os riscos climáticos para os acionistas.
As mudanças climáticas também estão se tornando uma preocupação crescente entre os investidores, que têm pressionado cada vez mais as empresas para que divulguem os riscos para seus negócios. De acordo com o relatório, “a falta de divulgação dos riscos climáticos e/ou o descumprimento das recomendações provavelmente aumentará o risco de litígios”.
“ Até recentemente, as empresas talvez não considerassem um processo judicial relacionado às mudanças climáticas como um risco, mas isso é algo que todas as corporações agora devem levar em conta”, disse Setzer.
Mais ações judiciais também estão fazendo alegações de violação de direitos humanos, e a análise de Grantham observa que essas alegações "têm tido crescente ressonância junto aos juízes em alguns casos estratégicos, apesar dos desafios em relação ao estabelecimento da causalidade". O relatório menciona a investigação da Comissão de Direitos Humanos das Filipinas sobre a responsabilidade dos produtores de combustíveis fósseis por violações de direitos humanos , bem como uma queixa recente apresentada ao Comitê de Direitos Humanos da ONU por habitantes das Ilhas do Estreito de Torres contra o governo australiano.
“ Os direitos humanos provavelmente continuarão sendo intrínsecos a casos futuros, dada a crescente aceitação dos impactos das mudanças climáticas na saúde, nos meios de subsistência, na moradia e em outros direitos fundamentais”, afirmou o relatório. Um relatório recente de um especialista das Nações Unidas define ainda mais a conexão entre as mudanças climáticas e as violações dos direitos humanos, e sugere que governos e empresas de combustíveis fósseis sejam responsabilizados.
O relatório conclui que “o uso de litígios sobre mudanças climáticas como ferramenta para promover mudanças políticas provavelmente continuará”, apesar dos custos e dos riscos. “Os litígios são claramente uma parte importante do arsenal daqueles que buscam combater as mudanças climáticas”, disse Setzer.
Imagem principal: Ação da COP22 para a eliminação dos combustíveis fósseis em África . Crédito: Takver , CC BY – SA 2.0

