Segundo ativistas, os grandes poluidores são os culpados pela lentidão das negociações climáticas anuais da ONU em Madri, na Espanha — com diversas empresas patrocinando as conversas em troca de isenções fiscais.
Entre os patrocinadores das negociações, conhecidas como COP25 , estão a empresa de serviços públicos de energia elétrica Iberdrola, que produziu 24.6 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono em 2018, e a Endesa, que, por meio de suas operações, produziu 61.9 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, de acordo com análises.
No entanto, representantes das principais empresas de petróleo e gás foram convidados a participar de painéis que ocorrerão ao longo do encontro.
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“ Tudo neste salão tem um cheiro ruim. Cheira a carvão, cheira a petróleo, cheira a gás. Isso porque temos, nestes espaços, as mesmas corporações transnacionais que estão poluindo o mundo e nos levando à extinção. E elas estão impondo suas agendas”, diz Nathalie Rengifo-Alvarez, da ONG Corporate Accountability, um dos grupos que produziu a análise dos patrocinadores corporativos da conferência.
Para participar da conferência climática, os delegados precisam ser credenciados pela organização climática da ONU , conhecida como UNFCCC . Mas alguns ativistas argumentam que, em vez de serem aprovadas e convidadas para as negociações, as empresas poluidoras deveriam ser impedidas de participar, dados os seus interesses financeiros na extração contínua de combustíveis fósseis.
“ Durante as negociações, associações comerciais que representam os interesses da indústria de combustíveis fósseis e de outros grandes poluidores circulam pelos corredores, defendendo a agenda de seus membros. O resultado dessa onipresença corporativa é evidente: as negociações avançam a passos de tartaruga e, na maioria das vezes, refletem os interesses de corporações globais, não das pessoas e do planeta”, escreveram ativistas contra a influência corporativa no site Common Dreams , no início das negociações na semana passada.
Painéis poluentes
Na terça-feira, um representante da Shell participou de um painel organizado pela Associação Internacional de Comércio de Emissões ( IETA , na sigla em inglês , um grupo de lobby empresarial pró-mercado de carbono cujos membros incluem BP , Chevron, Shell e TransCanada). David Hone, principal consultor da Shell para mudanças climáticas, subiu ao palco para defender a precificação do carbono e a captura e armazenamento de carbono ( CCS ).
Pascoe Sabido, do grupo de campanha Corporate Europe Observatory ( CEO ), classificou a aparição de Hone como um "enorme conflito de interesses".
O CEO está preocupado com o fato de a indústria estar usando a promessa da tecnologia de captura e armazenamento de carbono como desculpa para evitar a redução direta das emissões, prometendo enterrá-las em vez de fazer uma transição completa para longe dos combustíveis fósseis.
“ A Shell é uma corporação multibilionária e tem uma responsabilidade para com seus acionistas, e precisa continuar demonstrando que possui reservas em seus balanços e que continua gerando lucro”, disse Sabido.
O painel da Shell também não foi um evento isolado. Segundo Sabido, a Shell participou de seis eventos durante a conferência deste ano e enviou 146 delegados às negociações climáticas da ONU nos últimos 20 anos.
Na segunda-feira, o governo da Austrália ofereceu uma recepção conjunta com o Carbon Market Institute, cujos membros incluem BP , Shell e ConocoPhillips. O evento, que só teve convidados, ilustra o grau de acesso que as empresas de energia têm aos governos nacionais no processo de formulação de políticas da ONU .
Esse acesso rapidamente se transforma em influência — nas negociações do ano passado, Hone gabou-se de que a Shell havia ajudado a redigir parte do texto que consta no Acordo de Paris, incluindo a linguagem controversa sobre os mercados de carbono.
Ignorando as comunidades
Além de oferecer acesso às negociações, os ativistas argumentam que o patrocínio corporativo dá às empresas poluidoras a oportunidade de limpar injustamente suas imagens.
Leia toda a cobertura da DeSmog sobre a COP25.
De fato, para muitos ativistas, particularmente no Sul Global, acabar com a extração de combustíveis fósseis não se trata apenas de combater as mudanças climáticas, mas também de apoiar os direitos humanos – a Shell, por exemplo, foi acusada de abusos dos direitos humanos e destruição ambiental na Nigéria.
“ Repetidamente, as corporações ignoram as comunidades e as terras de onde extraem seus recursos. Elas extraem recursos e usam seus lucros para garantir sua participação em negociações como a COP e utilizam o greenwashing para tentar se posicionar como aceitáveis”, afirma Vidya Dikar, do Movimento dos Povos Asiáticos sobre Dívida e Desenvolvimento, em um comunicado.
Na semana passada, ativistas abandonaram um evento que contava com a participação de representantes da Shell, BP e Chevron.
De forma mais ampla, a solução não é os ativistas abandonarem as negociações, mas sim tentarem garantir que os poluidores não possam influenciar o processo, disse Brandon Wu, diretor de políticas e campanhas da ActionAid USA , em declaração feita em Madri na terça-feira.
“ Este processo é essencial porque a mudança climática é um problema global que exige uma solução global”, disse ele. O problema é que as negociações são atualmente dominadas por atores que não têm os melhores interesses do planeta em mente – incluindo corporações e o governo dos EUA . “Precisamos de diferentes tipos de atores nesse espaço. Não podemos ter corporações nesse espaço.”
Imagem: Flickr/ UNFCCC , CC BY – NC – SA 2.0
