Representantes de grandes empresas brasileiras de carne ligadas ao desmatamento da Amazônia estão entre os delegados que representam o país na cúpula climática COP26.
O Brasil se uniu a mais de 100 países para anunciar, na terça-feira, durante a conferência sobre o clima, um compromisso "histórico" de proteger as florestas, prometendo acabar com o desmatamento até 2030.
Mas uma lista divulgada esta semana pelos organizadores da COP26 mostra que o Brasil não só está enviando a maior delegação para a cúpula climática, como essa delegação — responsável por representar os interesses do país — inclui figuras influentes do agronegócio, além de outros grandes poluidores.
Isso inclui dois representantes de alto escalão de duas das maiores empresas de carne do Brasil, Marfrig e Minerva: Marcos Antonio Molina dos Santos, presidente do conselho da Marfrig, e Fernando Galletti de Queiroz, CEO da Minerva Foods.
Juntamente com a JBS, a maior empresa de carne do mundo, as duas empresas dominam o setor de carnes no Brasil. A Marfrig é a segunda maior produtora de carne bovina do mundo, enquanto a Minerva é a maior exportadora de carne bovina da América do Sul.
Outros delegados incluem representantes da Confederação Brasileira da Agricultura e Pecuária (CNA), entidade que representa os produtores de carne, um representante da Petrobras, a petrolífera estatal brasileira, e da Suzano, a maior produtora mundial de celulose.
Algumas dessas empresas agropecuárias foram acusadas de contribuir para a destruição da Amazônia, inclusive por meio de ligações com os incêndios recordes no Pantanal no ano passado, uma das maiores áreas úmidas tropicais do mundo. Analisando imagens de satélite, um relatório do Greenpeace sugere que pecuaristas que forneceram carne tanto para a Marfrig quanto para a Minerva estavam ligados aos incêndios do ano passado na região.
Proteger a Amazônia é crucial para os esforços climáticos que visam limitar o aumento das temperaturas globais. A floresta é responsável pelo armazenamento de quantidades enormes de dióxido de carbono — mas um estudo recente mostrou que partes da Amazônia estão liberando mais carbono do que o que está sendo absorvido pelas árvores. Em 2020, o desmatamento da floresta tropical atingiu o nível mais alto em 12 anos.
A agricultura é responsável por cerca de três quartos do desmatamento em todo o mundo, e a produção de carne bovina responde por pouco mais de 40%. O Brasil, atualmente liderado pelo populista de direita Jair Bolsonaro, é responsável por mais de um terço do desmatamento global, tornando-se o maior contribuinte para o desmatamento no mundo.
Tanto a Marfrig quanto a Minerva tomaram medidas nos últimos anos para limitar o desmatamento em suas cadeias de suprimentos. No entanto, diversos fatores, incluindo a enorme dimensão do setor, a falta de transparência do governo e tentativas anteriores malsucedidas, fazem com que algumas pessoas ainda se mostrem céticas em relação às ações propostas pelas empresas.
Shona Hawkes, assessora de políticas florestais globais da Global Witness, disse: “Essas florestas estão em um ponto de inflexão crítico. E este é um assunto sobre o qual o povo brasileiro, em sua grande maioria, exige ações concretas, assim como os povos indígenas do Brasil. Portanto, cabe à comunidade internacional não legitimar os chamados compromissos do governo Bolsonaro, que ficam aquém do necessário.”
“A única maneira de impedirmos as mudanças climáticas catastróficas e termos alguma chance de sobreviver no planeta é acabar com o desmatamento agora. Parem com isso agora”, continuou Hawkes. “E não podemos nos basear em metas para 2025, 2030 ou 2050.”
"Acho que qualquer governo que assuma um compromisso climático, mas não consiga conter um problema ambiental tão grave como o desmatamento, mesmo que seja apenas o desmatamento ilegal, certamente cheira a greenwashing e levanta questões sobre por que essas decisões estão tão em desacordo com o que o público brasileiro está exigindo."
Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, uma rede de organizações climáticas que atuam no Brasil, afirmou: “A inclusão de poluidores na delegação brasileira não é novidade. Os governos brasileiros (mesmo antes de Bolsonaro) já estavam acostumados a incluir diversos setores. O que mudou é que a sociedade civil, entre outros, não é mais bem-vinda.”
Astrini prosseguiu: “Este governo, desde o primeiro dia, tem feito campanha contra as florestas, o clima, a biodiversidade, as comunidades indígenas e a ciência.”
Um porta-voz da delegação brasileira e o ponto focal nacional do país junto à UNFCCC foram contatados para comentar o assunto.
Pesquisa adicional por Adam Barnett e Michaela Herrmann.