Vitória da extrema direita pode "romper" o lucrativo impulso das energias renováveis ​​na Alemanha Oriental, dizem especialistas.

Uma vitória nas eleições históricas deste fim de semana pode impedir a aprovação de um lucrativo projeto de energia eólica e solar na Saxônia-Anhalt pelo partido Alternativa para a Alemanha.
Análise
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Ulrich Siegmund, principal candidato do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, discursa para seus apoiadores em uma praça de mercado, em 24 de agosto de 2026. Crédito: Jan Woitas/dpa

Uma versão deste artigo foi publicada originalmente pelo veículo de jornalismo investigativo alemão CORRECTIV.

Neste domingo, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) poderá assumir o poder pela primeira vez na história de um estado alemão – o cargo mais alto ocupado por um partido de extrema-direita desde a era nazista.

O partido AfD está atualmente com cerca de 40% das intenções de voto na Saxônia-Anhalt, um dos cinco antigos estados do leste da Alemanha, antes das eleições. O líder regional do partido, Ulrich Siegmund, conduziu uma campanha controversa chamada "Visão 2026", que visa imigrantes irregulares e proíbe a exibição de bandeiras LGBTQ+ nas escolas.

Uma vitória absoluta também colocaria em risco a política energética e climática do estado. Em seu programa eleitoral, o AfD promete um "boom econômico" para a região. Mas especialistas afirmam que a hostilidade do partido às energias renováveis ​​aumentaria os preços da energia e prejudicaria a economia local. 

Até o momento, a Saxônia-Anhalt tem sido pioneira em energia solar e eólica. Em 2024, cerca de 60% da eletricidade do estado foi produzida por fontes renováveis, percentual superior à média nacional alemã para aquele ano. 

O setor de energias renováveis ​​também emprega cerca de 26,000 pessoas em suas cadeias de suprimentos, segundo a associação estadual de energias renováveis. Uma das principais fabricantes de turbinas eólicas da Alemanha, a Enercon, tem cerca de 1,000 funcionários somente na capital do estado, Magdeburgo.

O setor também gera receitas consideráveis ​​para a Saxônia-Anhalt – pelo menos € 173 milhões (£ 149 milhões) em 2023, de acordo com um estudo encomendado pelo Ministério Federal da Economia e Energia. Se o estado atingir a meta da Alemanha de gerar 80% da eletricidade a partir de fontes renováveis ​​até 2030, esse valor poderá subir para pelo menos € 411 milhões (£ 354 milhões) em 2033.

Oliver Stutzer, diretor-geral da Getec Green Energy Group, operadora de usinas de energia renovável com sede em Magdeburg, alertou que uma vitória do AfD poderia causar uma "ruptura política" nas "condições estabelecidas para a expansão e o investimento" em energias renováveis. 

A transição energética já não é apenas uma questão de política climática, disse ele à CORRECTIV. "Esperamos que, após as eleições, a política energética seja debatida de forma pragmática, com base nessas realidades econômicas." 

“Com um governo da AfD, existe o risco de a implementação de energias renováveis ​​ser interrompida”, comentou Jörg Dahlke, membro do conselho da cooperativa de energia comunitária Helionat eG, na Saxônia-Anhalt. Isso, segundo ele, levaria à perda de empregos e representaria “um grande risco para um grande número de empresas”.

'Retorno de 180 graus'

O manifesto do AfD, que promete uma "mudança radical de 180 graus na política energética", reflete a posição defendida pelo partido nacional. Ambos os partidos propõem a suspensão da eliminação gradual do carvão na Alemanha, a construção de novas usinas a gás e o abandono das energias renováveis. 

Na Saxônia-Anhalt, o partido defende uma "moratória da energia eólica" – uma proibição total de todas as novas turbinas eólicas. Mas o poder de qualquer governo estadual para implementar isso é limitado, já que a expansão da energia eólica é regulamentada em nível federal.

A alavanca mais eficaz do AfD contra as turbinas eólicas no estado seria atrasar sua instalação. O partido já apresentou moções parlamentares para impedir novas áreas prioritárias para energia eólica e para permitir iniciativas cidadãs contra esses projetos. O objetivo: assustar os investidores e garantir que os prazos não sejam cumpridos. 

Fontes do setor sugerem que algumas empresas podem desistir de novos projetos eólicos caso o AfD seja eleito – contradizendo outro objetivo declarado do partido, que é priorizar as pequenas e médias empresas. A CORRECTIV constatou que o AfD tem apoiado opositores da energia eólica na maioria das regiões da Saxônia-Anhalt.

Energia solar ameaçada

Embora a capacidade do partido de interromper a energia eólica possa ser limitada, a ameaça que representa para a implantação da energia solar é considerável. 

Isso ocorre porque a expansão da energia solar é regulamentada pelas autoridades locais, e não pelo governo federal. Um governo estadual do partido AfD poderia intervir para impedir que as autoridades locais aprovassem novas fazendas solares e, assim, cumprir a promessa de seu programa eleitoral de se opor à construção de projetos solares em solo. 

Stephan Phan, chefe do secretariado da Associação Estadual de Energias Renováveis ​​da Saxônia-Anhalt, afirma que o governo estadual poderia desacelerar a expansão de parques solares impondo novas regulamentações ou entraves burocráticos. Parques solares de menor porte, em particular, poderiam se tornar menos viáveis ​​comercialmente.

“A energia renovável é um fator importante para a localização na Saxônia-Anhalt”, afirma Phan, que observa que, cada vez mais, empresas de outros setores – como as indústrias química e alimentícia – estão questionando a disponibilidade de eletricidade proveniente de fontes renováveis ​​no estado e podem optar por se mudar para outro lugar caso a Saxônia-Anhalt desacelere seu progresso em relação às energias renováveis.

Enfrentando as mudanças climáticas

É provável que um governo da AfD na Saxônia-Anhalt abandone medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, concentrando recursos na “proteção da pátria”. Em seu manifesto, o partido afirma que a mudança climática não pode ser detida pela Alemanha, “e certamente não pela Saxônia-Anhalt”.

Isso não significa que as mudanças climáticas não estejam tendo impacto na região, visto que a temperatura mais alta já registrada na Alemanha, de 41.5°C, foi observada no estado durante a onda de calor de junho deste verão na vila de Drewitz. 

Entretanto, a temperatura média no estado aumentou cerca de 1.3°C desde a década de 1960. As mudanças climáticas também estão levando a um aumento na frequência de eventos climáticos extremos, como inundações e chuvas torrenciais.

Isso está causando danos econômicos significativos na Saxônia-Anhalt. De acordo com dados da Associação Alemã de Seguros (GDV), os danos causados ​​por inundações, chuvas torrenciais e outros eventos climáticos extremos em 2025 custaram cerca de € 6 milhões (£ 5 milhões), enquanto o custo de tempestades e granizo chegou a € 22 milhões (£ 19 milhões). Em 2024, o custo dos danos foi ainda maior. Os eventos climáticos extremos custaram € 15 milhões (£ 13 milhões), enquanto os danos causados ​​por tempestades e granizo totalizaram cerca de € 45 milhões (£ 39 milhões).

A agricultura na Saxônia-Anhalt também está sofrendo as consequências das condições climáticas extremas. A Associação de Agricultores do estado prevê uma colheita ruim e, em alguns casos, “catastrófica” para 2026, devido ao calor, à seca e à baixa pluviosidade. O grupo descreveu a situação do abastecimento de água em todo o país como “muito precária”.

Inúmeros outros setores na Saxônia-Anhalt estão sofrendo as consequências do aquecimento global, com as ondas de calor reduzindo a produtividade nas empresas. 

Segundo cálculos do Instituto Prognos, um único dia de calor extremo durante a onda de calor no final de junho na Saxônia-Anhalt custou cerca de 22 milhões de euros (19 milhões de libras). Os baixos níveis de água em rios como o Elba significam que menos mercadorias podem ser transportadas. O risco de incêndios florestais está aumentando.

No entanto, o programa eleitoral da AfD não menciona como a Saxônia-Anhalt deve lidar com as consequências das mudanças climáticas, seja no presente ou no futuro.

Edição e verificação de fatos: Gesa Steeger

Tradução: Joey Grostern

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Elena é repórter de clima na plataforma alemã de investigações CORRECTIV.

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