Uma manchete da BBC em julho expressou a situação de forma contundente: "Comer menos carne é como tirar 8 milhões de carros das ruas". É o tipo de frase de efeito que certamente causa pânico nas grandes empresas alimentícias, que estão cada vez mais pressionadas a reduzir a poluição, assim como a indústria de combustíveis fósseis.
As evidências do papel do agronegócio na crise climática estão aumentando. Um estudo de março constatou que, sem ações decisivas, as emissões provenientes apenas do sistema alimentar levarão o planeta a um aquecimento global superior a 1.5°C.
Mas com o crescente escrutínio dos sistemas alimentares – e o interesse cada vez maior em mudanças transformadoras – surgiu uma reação concertada por parte das empresas e países poderosos que têm mais a perder com uma ruptura com o status quo.
Assim, na preparação para a cúpula COP28 deste ano em Dubai, a DeSmog investigará os poderosos interesses do agronegócio e descobrirá se as "soluções climáticas" que eles propõem têm probabilidade de resultar em reduções significativas na poluição.
Os anfitriões deste ano são os controversos Emirados Árabes Unidos (EAU), dependentes do petróleo, que, diante das colheitas dizimadas por ondas de calor recordes, secas em todo o mundo e oceanos superaquecidos, estão empenhados em manter a alimentação como um dos principais temas da agenda da cúpula.
Mas, para que se consigam reduções rápidas e profundas nas emissões que desacelerem o aquecimento global, as soluções do setor agrícola precisam ser... bem, sérias e genuínas. Isso significa: metas razoáveis, ambiciosas e de curtíssimo prazo para a redução da poluição.
No entanto, muitas das soluções que estão sendo testadas pela indústria para reduzir as emissões de metano – desde alimentar o gado com algas marinhas até editar o genoma das vacas – são enganosas, não comprovadas ou não estão surtindo efeito.
Para ajudar a decifrar algumas das novas ideias favoráveis à indústria que estão sendo oferecidas, na preparação para a cúpula de novembro, vamos analisar o novo vocabulário de greenwashing que surgiu em torno do metano – o potente gás de efeito estufa produzido pelo gado e outros animais de criação.
Planejamos também analisar mais de perto grupos influentes como a Missão de Inovação Agrícola para o Clima, liderada pelos Emirados Árabes Unidos e pelos EUA (ou “AIM for Climate”), que no ano passado atraiu críticas por favorecer grandes empresas e promover soluções tecnológicas incertas.
Nos últimos anos, a DeSmog documentou como as principais empresas do agronegócio estão trabalhando para controlar as narrativas sobre alimentação e clima. As táticas do setor variam desde a promoção de vacas "amigas do clima" até o preenchimento dos corredores das cúpulas climáticas com um número cada vez maior de lobistas. Como resultado, elas obtiveram vitórias importantes: por exemplo, o lobby bem-sucedido para excluir a agricultura do Compromisso Global de Metano de 2021.
À medida que a perda de biodiversidade continua em ritmo acelerado e as temperaturas globais aumentam, a DeSmog trabalhará para tornar visível a influência desproporcional daqueles que bloqueiam a ação climática no cerne dos nossos sistemas de governança mundial. A ciência nos diz que não podemos nos dar ao luxo de agir de outra forma.
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