Ativistas dizem que a indústria de pesticidas "sequestrou" o palco do clima na COP30.

Promessas corporativas de combater o desmatamento transformando pastagens degradadas em terras agrícolas são vistas como um fator que impulsiona a demanda por insumos químicos nocivos.
Análise
Ativistas na Agrizone da COP30 protestam contra o uso excessivo de agrotóxicos. (Crédito: Devlin Kuyek/ Grain)

A Syngenta e outras empresas de pesticidas aproveitaram a conferência climática COP30 no Brasil para promover programas de recuperação de pastagens degradadas, que, segundo ativistas, podem levar ao aumento do uso de produtos químicos tóxicos.

Grupos comerciais organizaram diversos eventos para promover uma técnica conhecida como "recuperação de pastagens degradadas", na qual terras danificadas por sobrepastoreio ou outras formas de má gestão são convertidas para o cultivo de soja, cana-de-açúcar, milho ou outras culturas. 

O Brasil afirma que essa abordagem ajudará a reduzir a pressão sobre as florestas, abrindo novas áreas de terra arável. O país estabeleceu a meta de converter 40 milhões de hectares de pastagens degradadas em zonas de produção de alimentos e biocombustíveis na próxima década — uma área quase duas vezes maior que o Reino Unido.

Mas pequenos agricultores e grupos ambientalistas alertaram que a expansão da agricultura intensiva nas áreas do programa levaria a um aumento no uso de produtos químicos, o que já está causando grave poluição no Brasil, o maior mercado de agrotóxicos do mundo. 

“Nas comunidades rurais, especialmente camponesas e indígenas, quilombola“Para comunidades ribeirinhas e rurais, os efeitos [dos pesticidas] são devastadores”, disse Gerson Barbossa, agricultor brasileiro e representante do sindicato de pequenos agricultores La Via Campesina, ao DeSmog. “Há uma clara tentativa de sequestrar o debate climático para expandir os mercados de insumos.”

O uso de pesticidas é um fator global de destruição da biodiversidade, incluindo a morte de aves e abelhas, e Barbossa citou esses e outros impactos, incluindo ligações com Câncer e neurológico problemas.

Estudos têm ligado desde o uso de pesticidas na expansão da produção de soja — uma das culturas comumente incluídas em programas de recuperação de pastagens degradadas — até o aumento de casos de leucemia infantil no Brasil.

Plano da Syngenta

A multinacional suíça Syngenta, maior empresa de pesticidas do mundo, esteve entre os defensores mais ativos da recuperação de pastagens degradadas na COP30 por meio de seu programa principal, o Reverte, que, segundo a empresa, já envolveu 400 fazendas no Brasil.

A Syngenta classificou o Reverte como sua maior “iniciativa de sustentabilidade” em todo o mundo. visa Aplicar o programa a uma área equivalente ao tamanho da Jamaica até 2030 e, em julho, anunciou planos de expansão para o Paraguai.

Segundo a iniciativa, agricultores brasileiros podem solicitar empréstimos com juros baixos do Itaú Unibanco, o maior banco do Brasil, em troca da adoção de uma série de práticas agrícolas destinadas a converter pastagens em terras agrícolas. incluam O uso de tecnologias digitais e pesticidas da Syngenta. Os agricultores devem evitar o desmatamento, de acordo com a meta de "desmatamento zero" do programa. 

O Itaú Unibanco afirmou que o programa poderia promover práticas agrícolas “mais eficientes e responsáveis”. No entanto, ambientalistas e pequenos agricultores presentes na COP30 permaneceram céticos, alertando que vincular financiamento barato a programas administrados pelo setor de pesticidas dará à indústria poder de influência sobre os agricultores. 

“Existem muitas maneiras de controlar pragas, ervas daninhas e doenças em uma fazenda, mas qualquer recomendação de uma empresa de pesticidas vai sugerir o uso de mais pesticidas”, disse Devlin Kuyek, da Grain, uma organização sem fins lucrativos que trabalha com agricultores e ativistas em todo o mundo. “O crédito está sendo usado para expandir os mercados de empresas de sementes, pesticidas e fertilizantes, e para obrigar os agricultores a usar seus produtos.”

Grandes Promessas 

A Syngenta promoveu seu programa Reverte como uma solução climática em diversos painéis nos locais oficiais da COP, incluindo a Zona Azul, onde ocorreram as negociações oficiais.  

“Estamos aumentando o carbono no solo e melhorando a prosperidade rural”, disse Gabriel Moura, coordenador de sustentabilidade da Syngenta, em um painel da COP30 em 13 de novembro. Zona Agro, uma área dedicada à agricultura na cúpula, que é copatrocinada por empresas, incluindo a fabricante de pesticidas Bayer.

Embora os solos possam capturar quantidades significativas de carbono, estudos têm mostrando que o uso de pesticidas representa uma grande ameaça para os organismos essenciais para a saúde do solo e para o sequestro de carbono no solo.

Em um painel posterior com o Itaú Unibanco sobre o programa Reverte, em 15 de novembro, Claudia Veiga Jardim, gerente sênior de sustentabilidade da Syngenta, afirmou que o uso de pesticidas faz parte da solução. "A melhor produtividade pode ser obtida com o uso correto dos insumos", disse ela. 

Gabriel Moura (à esquerda), coordenador de sustentabilidade da Syngenta, participa de um painel na Agrizone da COP30. (Crédito: Clare Carlile)

Em resposta às perguntas da DeSmog, um porta-voz da Syngenta afirmou que as práticas aprovadas pelo programa podem incluir o uso de fertilizantes, rotação de culturas, plantio direto e “tecnologias de proteção de cultivos” — um eufemismo da indústria para pesticidas.

“Ao utilizar as tecnologias da nossa empresa, cria-se um protocolo único para restaurar a terra e manter o solo saudável”, disse o porta-voz. “O agricultor toma as decisões — incluindo quais sementes, insumos e práticas agrícolas adotar.”

Eliseo Rusol Jr., pesquisador da rede de agricultura sustentável Farmer-Scientist Partnership for Development, com sede nas Filipinas, ou MASIPAG, disse que era uma “grande ironia” a Syngenta se posicionar como defensora da sustentabilidade.
 
 “Eles fazem parte de um sistema muito prejudicial que acelera a crise climática, porque o tipo de 'agricultura sustentável' que praticam ainda depende de insumos químicos e herbicidas nocivos”, afirmou. 

Quase todos os pesticidas químicos são feitos de combustíveis fósseis. 

Abordagem brasileira

Enquanto o setor de agrotóxicos se esforçava para expandir o mercado de seus produtos na COP30, o Brasil também promovia seu próprio programa de recuperação de pastagens, o Caminho Verde.

O governo angariado Estima-se que 30 bilhões de reais (US$ 5.6 bilhões) foram arrecadados em um leilão em agosto para financiar a recuperação de 1.4 milhão de hectares de pastagens degradadas no âmbito do programa.

O governo diz que os projetos devem atender a padrões ambientais rigorosos, incluindo a recuperação do solo, e afirma que eles poderiam permitir que o país quase dobrasse sua área de produção de alimentos sem mais desmatamento.

Mas alguns ativistas alertam que o programa — assim como seus similares liderados por empresas — pode levar a uma maior expansão do agronegócio poluente.

O governo reconhece que o Caminho Verde deverá aumentar o uso de agrotóxicos, conforme declarado por José Carlos Polidoro, assessor da Secretaria Executiva do Ministério da Agricultura. dizendo Em uma audiência pública sobre a produção nacional de fertilizantes realizada no Congresso brasileiro em outubro, foi declarado: “Este programa poderá aumentar a demanda por fertilizantes em 10 milhões de toneladas até 2035”. 

Quase três quartos das áreas analisadas em um programa brasileiro anterior de recuperação de pastagens degradadas permaneceram inalteradas quatro anos após receberem apoio, segundo um estudo de 2024. estudo Pela organização sem fins lucrativos Climate Policy Initiative. 

Reportagem adicional de Hazel Healy

Foto recortada de Clare Carlile
Clare é pesquisadora na DeSmog, com foco no setor do agronegócio. Antes de ingressar na organização em julho de 2022, foi coeditora e pesquisadora da revista Ethical Consumer, onde se especializou em direitos dos trabalhadores migrantes na indústria alimentícia. Seus trabalhos foram publicados no The Guardian e no New Internationalist.

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